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Atualidade de Kardec para o Movimento Espírita

Iniciando o ano de 2019, vale a pena rever ensinos do codificador da doutrina espírita, Allan Kardec, sobre o movimento espírita na atualidade, posto na Revista Espírita do ano de 1862.

(…) Pedis a mim para vos continuar com meus conselhos; eu os dou de boa vontade àqueles que creem deles ter necessidade e que os reclamam; mas não os dou senão àqueles; aos que pensam deles saber bastante e poder abster-se das lições da experiência, nada tenho a dizer, senão que desejo que não tenham a se lamentar um dia por terem muito presumido de suas próprias forças. Essa pretensão, aliás, acusa um sentimento de orgulho, contrário, ao verdadeiro espírito do Espiritismo; ora, pecando pela base, provam só por isso que se afastam da verdade. Não sois desse número, meus amigos, e é por isso que aproveito a circunstância para vos dirigir algumas palavras que vos provarão que, de longe como de perto, estou inteiramente ao vosso dispor.

No ponto em que hoje as coisas estão, e ao ver a marcha do Espiritismo através dos obstáculos semeados sobre o seu caminho, pode-se dizer que as principais dificuldades estão vencidas; ele tomou seu lugar e está assentado sobre bases que desafiam, doravante, os esforços de seus adversários. Pergunta-se como uma doutrina que nos torna felizes e melhores, pode ter inimigos; isso é muito natural: o estabelecimento das melhores coisas, no começo, fere sempre interesses; não foi assim com todas as invenções e descobertas que fizeram revolução na indústria? As que hoje são olhadas como benefícios, sem quais não se poderia mais se passar, não tiveram inimigos obstinados? Toda lei que reprime os abusos, não tem contra si aqueles que vivem dos abusos? Como quereríeis que uma doutrina, que conduz ao reino da caridade efetiva, não seja combatida por todos aqueles que vivem do egoísmo; e sabeis o quanto são estes numerosos sobre a Terra! No princípio, esperaram matá-la pela zombaria; hoje veem que essa arma é impotente, e que sob o fogo constante dos sarcasmos continuou seu caminho sem tropeçar; não credes que eles irão se confessar vencidos; não, o interesse material é mais tenaz; reconhecendo que é uma força com a qual, doravante, é preciso contar, vão lhe travar assaltos mais sérios, mas que não servirão senão para melhor provar sua fraqueza. Uns atacarão abertamente, em palavras e em ações, e a perseguirão até na pessoa de seus adeptos, que tentarão desencorajar à força de tormentos, ao passo que outros, ocultamente e por caminhos deturpados, procurarão miná-la surdamente. Tende, pois, por advertidos de que a luta não terminou. Estou prevenido de que vão tentar um supremo esforço; mas não tenhais medo; a garantia do sucesso está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros Espíritas: Fora da caridade não há salvação. Arvorai-a claramente, porque ela é a cabeça de Medusa para os egoístas.

A tática já usada pelos inimigos dos Espíritas, mas que vão empregar com um novo ardor, é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando, entre eles, a desconfiança e a inveja. Não vos deixeis prender na armadilha, e tende por certo que quem procura, por um meio qualquer que seja, romper a boa harmonia, não pode ter uma boa intenção. É por isso que vos convido a colocardes a maior circunspecção na formação de vossos grupos, não somente para vossa tranquilidade, mas no próprio interesse de vossos trabalhos.

A natureza dos trabalhos espíritas exige a calma e o recolhimento; ora, não há recolhimento possível se se distrai por discussões e a expressão de sentimentos malévolos. Não haverá sentimentos malévolos, se houver fraternidade; mas não pode aí haver fraternidade com egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Com orgulhosos que se melindram e se ofendem com tudo, ambiciosos que estarão frustrados se não tiverem a supremacia, egoístas que não pensam senão neles, a discórdia não pode tardar a se introduzir e, daí, a dissolução. É o que querem nossos inimigos, e é o que procurarão fazer. Se um grupo quer estar em condições de ordem, de tranquilidade e de estabilidade, é preciso que nele reine um sentimento fraternal. Todo grupo ou sociedade que se forma sem ter a caridade efetiva por base, não tem vitalidade; ao passo que aqueles que serão fundados segundo o verdadeiro espírito da Doutrina, se olharão como os membros de uma mesma família, que, não podendo todos habitar sob o mesmo teto, moram em lugares diferentes. A rivalidade entre eles seria um contrassenso; ela não poderia existir ali onde reina a verdadeira caridade, porque a caridade não pode se entender de duas maneiras. Reconhecereis, pois, o verdadeiro Espírita pela prática da caridade em pensamentos, em palavras e em ações, e dizei-vos que, quem nutre em sua alma sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme mente a si mesmo se pretende compreender e praticar o Espiritismo.

O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como matam os povos e a sociedade em geral. Lede a história, e vereis que os povos sucumbem sob o amplexo desses dois mortais inimigos da felicidade dos homens. Quando se apoiarem sobre as bases da caridade, serão indissolúveis, porque estarão em paz entre eles e com eles próprios, cada um respeitando os direitos e os bens de seu vizinho. É a era nova predita, da qual o Espiritismo é o precursor, e pela qual todo Espírita deve trabalhar, cada um em sua esfera de atividade. É uma tarefa que lhes incumbe, e da qual serão recompensados segundo a maneira que a terão cumprido, porque Deus saberá distinguir aqueles que não terão procurado no Espiritismo senão a sua satisfação pessoal, daqueles que terão, ao mesmo tempo, trabalhado pela felicidade de seus irmãos.

Devo ainda vos assinalar uma outra tática de nossos adversários, que é a de procurar comprometer os Espíritas, impelindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da Doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada, e que poderiam, a justo título, despertar suscetibilidades sombrias. Não vos deixeis, não mais, vos prender nesta armadilha; afastai com cuidado, em vossas reuniões, tudo o que tem relação com a política e com questões irritantes; as discussões, sob esse assunto, não levariam a nada senão a vos suscitar embaraços, ao passo que ninguém pode achar de censurar a moral quando ela é boa. Procurai, no Espiritismo, o que pode vos melhorar, está aí o essencial; quando os homens forem melhores, as reformas sociais, verdadeiramente úteis, lhe serão a consequência muito natural; trabalhando para o progresso moral, possuireis os verdadeiros e os mais sólidos fundamentos de todos os melhoramentos, e deixais a Deus o cuidado de fazer as coisas chegarem a seu tempo. Oponde, pois, no próprio interesse do Espiritismo que é ainda jovem, mas que amadurece depressa, uma inabalável firmeza àqueles que procurarem vos arrastar num caminho perigoso.

(…) Repetirei aqui o que disse em outras ocasiões: em caso de divergência de opinião, há um meio fácil para sair da incerteza, é o de ver a que mais liga os partidários, porque há nas massas um bom senso inato que não poderia se enganar. O erro não pode seduzir senão alguns Espíritos cegos pelo amor-próprio e um falso julgamento, mas a verdade acaba sempre por se impor; tende, pois, por certo que ela abandona as classes que se esclarecem, e que há uma obstinação irracional em crer que um só tem razão contra todos.

Se os princípios que eu professo não encontrassem senão alguns ecos isolados, e se fossem repelidos pela opinião geral, eu seria o primeiro a reconhecer que pude me enganar; mas vendo crescer, sem cessar, o número dos adeptos, em todas as classes da sociedade, e em todos os países do mundo, devo crer na solidez da base em que repousam; é por isso que vos digo, com toda a segurança, para marchardes com passo firme no caminho que vos está traçado; dizei aos vossos antagonistas que, se querem que os sigais, vos ofereçam uma doutrina mais consoladora, mais clara, mais inteligível, que melhor satisfaça à razão, e que seja, ao mesmo tempo, uma melhor garantia para a ordem social; frustrai, pela vossa união, os cálculos daqueles que quereriam vos dividir; provai, enfim, pelo vosso exemplo, que a Doutrina nos torna mais moderados, mais brandos, mais pacientes, mais indulgentes, e isso será a melhor resposta a dar aos seus detratores, ao mesmo tempo que a visão de seus resultados benfazejos é o mais poderoso meio de propaganda.

Eis, meus amigos, os conselhos que vos dou e aos quais junto meus votos para o ano que começa. Não sei quais provas Deus nos destina para este ano, mas sei que, quaisquer que sejam, vós a suportareis com firmeza e resignação, porque sabeis que, para vós como para o soldado, a recompensa é proporcional à coragem.

 

Allan Kardec – Revista Espírita ano 1862 – Fevereiro

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